Dados da rotina
O que milhares de ecocardiogramas mostram sobre cães e gatos.
Milhares de laudos de ecocardiografia veterinária já passaram pelo VetReport. Reunimos aqui, de forma agregada e anônima, o retrato que eles desenham: quem chega à sala de exame, com que idade, e quais números aparecem de fato na rotina.
São animais encaminhados ao ecocardiograma, e a amostra mistura dois motivos bem diferentes: suspeita clínica e rastreio, seja pré-operatório, de raça predisposta ou de acompanhamento. Isso aparece nos próprios números, e de forma bem diferente entre as espécies: no gato, a conclusão de coração normal aparece várias vezes mais do que no cão. Um valor frequente aqui não é sinônimo de valor normal, nem de achado de doença. Para faixas de referência, veja as tabelas de valores normais.
Quem chega ao ecocardiograma
Praticamente 88,9% dos ecocardiogramas são de cães, quase nove em cada dez, e o gato aparece em 11,1%. A proporção é de quem foi encaminhado ao exame: nada aqui permite dizer como a doença cardíaca se distribui de fato entre as duas espécies.
| Raça (cães) | % dos exames | Peso mediano | Idade mediana | AE/Ao mediana |
|---|---|---|---|---|
| SRD (sem raça definida) | 32,2% | 11,6 kg | 10 anos | 1,27 |
| Shih Tzu | 16,2% | 6,6 kg | 11 anos | 1,31 |
| Yorkshire | 9,3% | 4,2 kg | 10 anos | 1,35 |
| Spitz alemão | 5,0% | 5,0 kg | 6 anos | 1,28 |
| Poodle | 4,1% | 6,6 kg | 12 anos | 1,32 |
| Pinscher | 3,4% | 3,7 kg | 11 anos | 1,31 |
| Lhasa Apso | 3,3% | 7,5 kg | 10,5 anos | 1,24 |
| Maltês | 3,0% | 4,8 kg | 10 anos | 1,32 |
| Dachshund | 2,7% | 8,8 kg | 10,5 anos | 1,26 |
| Buldogue | 2,4% | 13,2 kg | 6 anos | 1,27 |
| Pug | 2,3% | 9,5 kg | 8 anos | 1,23 |
| Golden Retriever | 2,1% | 34,0 kg | 6 anos | 1,23 |
| Chihuahua | 1,2% | 3,6 kg | 6 anos | 1,32 |
| Border Collie | 1,1% | 22,7 kg | 8 anos | 1,22 |
Raças de porte pequeno dominam a lista, coerente com a doença valvar mixomatosa, que é o motivo mais comum de encaminhamento. Chama atenção o contraste de idade: Poodle e Pinscher chegam ao exame por volta dos 12 anos, enquanto Spitz, Buldogue, Chihuahua e Golden Retriever aparecem aos 6. E esse contraste acompanha o resultado: nas raças que chegam mais jovens, o laudo conclui coração normal duas a três vezes mais do que nas que chegam depois dos 10 anos. O que traz cada grupo à sala de exame não está registrado no laudo, então a razão fica em aberto.
Em que idade o exame acontece
A idade mediana é de 10 anos no cão e 8 anos no gato, mas a distribuição felina é bem mais espalhada: cerca de um quarto dos gatos chega ao exame antes dos 5 anos, o dobro da proporção observada em cães.
| Faixa etária | Cães | Gatos |
|---|---|---|
| Menos de 1 ano | 2,0% | 8,4% |
| 1 a 4 anos | 10,8% | 18,1% |
| 5 a 7 anos | 17,6% | 18,6% |
| 8 a 10 anos | 26,0% | 21,6% |
| 11 a 13 anos | 29,3% | 19,1% |
| 14 anos ou mais | 14,3% | 14,3% |
Peso (percentis 25 / 50 / 75): cães 5,1 · 7,8 · 13,0 kg; gatos 3,5 · 4,4 · 5,5 kg. Metade dos cães examinados pesa menos de 7,8 kg.
Os números que os veterinários olham
O ecocardiograma produz dezenas de medidas, mas só um punhado delas muda conduta. Estes são os parâmetros que efetivamente sustentam a conclusão do laudo, e as listas são diferentes entre cão e gato, porque as doenças que se está procurando também são.
A coluna do meio é a mediana: metade dos exames fica abaixo dela, metade acima. As pontas (P10 e P90) mostram a dispersão real da rotina.
Em cães
A grande maioria dos encaminhamentos é doença mixomatosa da valva mitral. Daí o peso do átrio esquerdo e das medidas de enchimento e relaxamento.
Relação AE/Ao
faixa de referência →Tamanho do átrio esquerdo em relação à aorta, o marcador de sobrecarga de volume.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 1,09 | 1,18 | 1,29 | 1,44 | 1,78 |
Relação E/A
faixa de referência →Padrão de enchimento ventricular: relaxamento prejudicado, normal ou restritivo.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,68 | 0,79 | 0,98 | 1,27 | 1,54 |
Em frequências altas as ondas E e A se fundem e a relação deixa de ser mensurável, e por isso parte dos exames não traz o valor. Isso enviesa a distribuição: o padrão restritivo, que aparece no animal descompensado e taquicárdico, é justamente o que mais escapa da medição, e por isso a cauda alta aqui é mais curta do que a rotina sugere.
Velocidade da onda E mitral(m/s)
faixa de referência →Estima a pressão de enchimento do átrio esquerdo.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,46 | 0,53 | 0,65 | 0,79 | 1,02 |
DIVEd normalizado
faixa de referência →Diâmetro ventricular corrigido pelo peso, comparável entre portes muito diferentes.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 1,17 | 1,30 | 1,46 | 1,61 | 1,87 |
Relação E/TRIV
faixa de referência →Combina enchimento e relaxamento num índice só, menos dependente da frequência que o E/A.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,64 | 0,81 | 1,06 | 1,41 | 2,02 |
Convenção do índice: onda E em cm/s dividida pelo TRIV em ms. Uma onda E de 0,64 m/s com TRIV de 61 ms dá 1,05. Vale conferir a unidade antes de comparar com o seu paciente.
Velocidade E' (Doppler tecidual)(m/s)
Relaxamento do miocárdio propriamente dito, com pouca influência da pré-carga.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,06 | 0,07 | 0,08 | 0,11 | 0,13 |
Aplicando o corte que o VetReport usa para classificar, a relação AE/Ao aparece aumentada em 15,1% dos ecocardiogramas caninos. Dilatação atrial esquerda é o achado estrutural mais recorrente da série.
Em gatos
Aqui o alvo é a cardiomiopatia hipertrófica: mede-se sobretudo espessura de parede e o comportamento do átrio esquerdo, não dimensão ventricular.
Parede livre do VE em diástole(mm)
faixa de referência →Espessura da parede, o achado que define a cardiomiopatia hipertrófica.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 2,9 | 3,3 | 3,8 | 4,6 | 5,3 |
Convertida de centímetros para milímetros, que é como o corte clínico de 6 mm costuma ser citado.
Septo interventricular em diástole(mm)
faixa de referência →A outra parede medida: a hipertrofia costuma ser segmentar, então as duas importam.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 2,8 | 3,3 | 3,9 | 4,4 | 4,9 |
Relação AE/Ao
faixa de referência →Átrio esquerdo, que é o que prevê insuficiência cardíaca congestiva no gato.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 1,05 | 1,14 | 1,24 | 1,35 | 1,52 |
Velocidade no apêndice auricular esquerdo(m/s)
faixa de referência →Estase no apêndice atrial, o parâmetro ligado ao risco de tromboembolismo aórtico.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,21 | 0,26 | 0,32 | 0,35 | 0,45 |
Medido em uma minoria dos exames; entra aqui porque a amostra passou do mínimo, mas é a distribuição menos representativa da página.
Velocidade da onda E mitral(m/s)
faixa de referência →Pressão de enchimento do átrio esquerdo.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 0,49 | 0,59 | 0,73 | 0,93 | 1,16 |
Relação E/E'
faixa de referência →Pressão de enchimento estimada de forma menos dependente da frequência cardíaca.
| P10 | P25 | Mediana | P75 | P90 |
|---|---|---|---|---|
| 5,5 | 7,0 | 8,9 | 11,2 | 15,3 |
A relação AE/Ao aparece aumentada em 10,2% dos exames felinos.
Pressão arterial sistólica em cães
Aferições feitas no app e classificadas pelo consenso ACVIM 2018. Dois em cada três cães medidos estão fora da faixa normotensa, e o número mais provável por trás disso não é doença: é a hipertensão situacional, a chamada hipertensão do jaleco branco, que o próprio consenso trata como o principal confundidor da aferição em consultório.
| Classificação ACVIM 2018 | % dos exames | PAS mediana |
|---|---|---|
| Normotenso (< 140 mmHg) | 32,9% | 130 mmHg |
| Pré-hipertenso (140–159) | 33,6% | 148 mmHg |
| Hipertenso (160–179) | 21,7% | 166 mmHg |
| Hipertensão severa (≥ 180) | 11,9% | 200 mmHg |
Os cortes estão em valores de referência. Uma única aferição não fecha diagnóstico de hipertensão: o consenso pede repetição em ambiente calmo, em dias diferentes, e correlação com lesão de órgão-alvo. Leia esta tabela como o retrato de aferições isoladas em consultório, não como prevalência de hipertensão arterial.
Como estes números foram apurados
- Agregação anônima de laudos gerados no VetReport. Nenhum dado identifica paciente, tutor, veterinário ou clínica.
- Só entram recortes com pelo menos 30 exames. Célula pequena demais é capaz de apontar para um animal específico, e por isso não é publicada.
- Não há recorte por clínica, profissional, cidade ou estado: só espécie, raça e faixa etária.
- Medianas e percentis, não médias: medida isolada muito fora da curva desloca a média e não desloca a mediana.
- Valores fora da faixa fisiologicamente possível foram descartados antes do cálculo: um erro de digitação num campo livre é suficiente para deslocar o P10 e o P90.
- Os parâmetros publicados não são todos os que o exame mede: são os que os veterinários efetivamente usam para concluir o caso, e por isso as listas de cão e gato são diferentes.
- Os números são um retrato fixo, não uma série que muda sozinha, para que possam ser conferidos e citados.